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Amanhã, 12 de novembro, é o aniversário da morte de Augusto dos Anjos. Em boa hora, então, o Jornal da Paraíba resolve homenagear o paraibano do século com a venda a preço popular de Eu, livro que o imortalizou. Desde a sua publicação, em julho de 1914, a obra tem tido sucessivas edições, confirmando a popularidade de um poeta de vocabulário “difícil”, embora musical, e que representa uma espécie de divisor de águas na poesia brasileira. Pode-se dizer, que a partir de Eu, a lírica brasileira despediu-se do século XIX e se fixou definitivamente na modernidade. Augusto dos Anjos foi o veículo agônico dessa transição.
550.000 réis Eu foi publicado mediante um empréstimo de 550.000 réis que o poeta tomou ao seu irmão Odilon. Este teria participação nos lucros, que segundo Raimundo Magalhães Júnior não existiram. Para o crítico baiano, “o mais provável é que os dois não tenham obtido qualquer vantagem financeira, dada a pequena tiragem e a profusa distribuição de exemplares feita pelo autor”. O poeta, com efeito, estava mais interessado na repercussão dos seus poemas entre os críticos e literatos da época, do que em ganhar dinheiro com a venda do livro. Nas cartas que trocou com a mãe por esse tempo, não deixava de referir pormenorizadamente tudo o que publicavam sobre Eu, enviando inclusive os recortes jornalísticos em que se comentava a sua estréia. Neles, era já possível perceber a surpresa, o escândalo e também o deslumbramento que o livro provocava.
Revolução poética A literatura brasileira, no princípio do século XX, era um caldo em que se misturavam reflexos tardios dos estilos de época vigentes no final do século anterior. Se havia novidades na prosa – com Os sertões, de Euclides da Cunha, ou Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto –, na poesia encontravam-se ecos retardatários do Simbolismo e do Parnasianismo, misturados a um poetar científico que era antes um reflexo dos conceitos e postulados positivistas irradiados da Escola do Recife. Os primeiros críticos e intérpretes de Eu logo perceberam que estavam diante de algo diferente. Entre os que se manifestaram sobre o livro pouco depois de lançado, estavam Hermes Lima e Euricles de Matos. O primeiro percebia nele “a afirmação de um grande espírito e o anúncio de um grande poeta”. O segundo, entusiasmado, saudava o aparecimento da obra como uma lufada de vento novo a sacudir o torpor literário da metrópole. Segundo Euricles, “Augusto vive entre nós, como todos nós, cansado de ver e aplaudir as mesmas coisas, ou, ao contrário, cheio de tédio e procurando fugir a esse meio que é o nosso, falso e pulha, indeciso e pérfido, desonesto e moribundo”. Eu constituiu, para ele, “o acontecimento poético do ano”. É verdade que em torno de Augusto existiram, de início, alguns equívocos. Um deles foi considerá-lo um bom poeta apesar da estranheza de algumas de suas imagens e do vocabulário inusitado de que se utilizava. Os adeptos ou cultoras da poesia científica certamente esperavam mais um versejador que se utilizasse da linguagem metrificada (confundida com linguagem poética) para divulgar princípios e conceitos da ciência e da filosofia da época. Não compreendiam que no uso subvertido e inusitado dos termos científicos, então valorizados pelo seu potencial de estranheza, contundência semântica e impacto fônico-expressivo, estava a revolução poética trazida por Augusto dos Anjos.
Morte e recomeço Há em Eu, sobretudo, uma representação vigorosa e radicalmente expressiva da melancolia. Ela como que precipita o indivíduo, a natureza, o cosmo numa espécie de abismo negro que suprime toda a alegria. A tristeza a que comumente se refere o poeta é “o rosto escuro de Narciso”, a contraface de desespero que não permite ao contemplador ver a si mesmo. Dizem que Augusto passava horas se mirando num espelhinho, como se quisesse decifrar os traços do seu rosto. Achava-se perseguido por sua sombra, alterego tristonho do poeta que fala no poema inaugural, “Monólogo de uma Sombra”, e em muitos outros do livro. A grande obsessão de Augusto é com a morte, devoradora insaciável de tudo. Tal obsessão, no entanto, alimenta-se da ambigüidade propiciada pela disposição melancólica do poeta: a morte é temida mas também desejada. É punição pelos pecados da carne e, ao mesmo tempo, a possibilidade de renovar-se a espécie. Diante disso, articulado ao pólo de tristeza e pessimismo existe no Eu uma dimensão oposta, de erotismo e alegria. Neste plano nem tudo se resume ao desejo da morte e à apologia do verme, sendo possível perceber em alguns trechos de poemas a satisfação com a vida e a exaltação da natureza – a mesma natureza que em outros momentos aparece como a “velha madrasta” a cujas leis o homem está acorrentado. Geralmente essas passagens aparecem no final dos poemas longos e se ligam ao registro do amanhecer. Elas se sucedem às elucubrações noturnas do poeta e constituem um contraponto à insônia, que lhe patrocina confusos e negros pensamentos – como acontece, por exemplo, no final de “Tristezas de um Quarto Minguante”: “Abro a janela. Elevam-se fumaças/ Do engenho enorme. A luz fulge abundante/ E em vez do sepulcral Quarto Minguante/ Vi que era o sol batendo nas vidraças.// Pelos respiratórios tênues tubos/ Dos poros vegetais, no ato da entrega/ Do mato verde, a terra resfolega/ Estrumada, feliz, cheia de adubos.
Na boca do povo Devido aos aspectos novos que trouxe à literatura brasileira, não é de admirar que Eu tenha chocado e ferido as sensibilidades ainda afeitas ao ideário parnasiano-simbolista. O livro gerou um novo tipo de expectativa, abriu um outro horizonte temático-estilístico para a poesia brasileira. Os poucos que viram isto saudaram-no com entusiasmo; os que não perceberam a novidade limitaram-se a manifestar o seu desprezo ou espanto. Entre os que não gostaram estava o poeta Olavo Bilac, o príncipe parnasiano que não podia mesmo entender ou aturar a grotesca dissonância dos versos de Augusto. Uma espécie de anedota fúnebre envolve os dois, que na verdade nunca se viram. Dizem que, ao saber da morte do paraibano e ouvir de alguém o soneto “Versos a um coveiro”, Bilac teria comentado: “É esse o grande poeta de que você fala? Então não se perdeu grande coisa, ele fez bem e morrer.” O tempo mostrou que o parnasiano errou feio em seu julgamento. Enquanto seus versos de ourives dormem no museu da literatura brasileira, servindo tão-somente de referência em nossa história literária, os de Augusto permanecem vivos na boca do povo, que os ama e recita com um fascínio que não morre. |