ESCRITOS AUGUSTO DOS ANJOS
Augusto dos Anjos trágico?
30/03/2007
 

Em texto publicado no segundo caderno de O Globo, o jornalista Paulo Roberto Pires identifica na revalorização de Augusto dos Anjos uma espécie de renascimento do trágico. Eis o subtítulo da sua matéria: "Mesmo rejeitado, o trágico volta a assombrar a arte moderna com a revalorização de Augusto dos Anjos." Ele não nos explica bem o que entende por trágico, misturando no mesmo bisaco os nomes de Rimbaud, Baudelaire, Nélson Rodrigues, Artaud e Nietzsche – e filiando à essência do trágico movimentos como o romantismo, o simbolismo e o expressionismo. O jornalista faz um pequeno festim lítero-dionisíaco, inserindo o seu artigo no próprio assunto de que trata. Pois é realmente trágica uma peça com tantos deslizes grandes e pequenos.
A começar pelo título cacofônico "A boca que escarra", pelo qual o articulista, a pretexto de citar o poeta paraibano, acaba lhe prestando um desserviço. Augusto deveria ser citado pelo que tem de bom, e não pelo que tem de lastimável. E, sobretudo, deveria ser citado com o devido respeito ao seu texto e aos fatos concernentes à sua vida.
Ele não escreveu, no soneto dedicado ao filho morto a 2 de fevereiro de 1911, "Agregado infeliz de carbono e cal,/fruto rubro da carne agonizante" – e sim "Agregado infeliz de sangue e cal/fruto rubro de carne agonizante". Nem começa o seu "Psicologia de um vencido" por "Eu, fruto do carbono e do amoníaco", e sim por "Eu, filho do carbono e do amoníaco". Augusto dos Anjos não morreu aos quarenta anos, e sim aos trinta. E o motivo da sua morte (Ih, como isso é velho!) não foi a tuberculose, mas uma pneumonia. Morreu infeccionado e, no delírio da febre, compôs o soneto "O último número", que Órris Soares enfeixou no final das "Outras poesias".
Seria Augusto dos Anjos um trágico? A meu ver, não. A não ser no sentido lato do termo tragédia, o qual comporta a idéia genérica de "impasse, falta de saída". Mas o nosso jornalista cita Nietzsche e, com isto, remete a conceitução do trágico ao seu sentido original.
Ora, o que dá ensejo ao herói trágico, qual a sua transgressão primeira? A chamada hamartia, ou "erro de cálculo", pela qual ele agride os deuses. A essa agressão, os gregos chamavam hybris. O herói trágico vive em hybris, desafiando os deuses a partir de um "erro de cálculo". Como tal, é vítima de uma armadilha do fado, ou destino. Ele não é originalmente culpado. É errôneo identificar a hamartia com o pecado, como o faz Lacan em algum ponto do seu Seminário 7. O pecado só viria depois, com o cristianismo. Hamartia é descuido, erro, submissão à fatalidade.
O pensamento trágico, que teve em Nietzsche um de seus expoentes, proclama todo o tempo a inocência humana. Por via disso, recusa qualquer referência a uma natureza, em função da qual o homem fosse percebido como diferença. Kierkegaard lembra que na diferença começa o pecado. Recusando a idéia de natureza, o pensamento trágico afirma a pureza e a solidão humanas; nele, o homem como que se constitui em referência de si mesmo – "uma corda sobre o abismo". Está sozinho perante o fado.
Ao pensamento trágico se opõe o pensamento ético, segundo o qual o homem é, desde o início, marcado pela falta – ou seja, pelo pecado original. E nessa forma de ver, conceber o homem, é que se insere a persona lírica de Augusto dos Anjos, para quem o grande problema humano é "a peçonha original de onde viemos". O Eu vem permeado de imagens de culpa, como nesta estrofe de "As Cismas do Destino": "Ah! Com certeza, Deus me castigava!/Por toda parte, como um réu confesso,/Havia um juiz que lia o meu processo/E uma forca especial que me esperava!".
Daí que se observa em toda a poesia do paraibano, ao invés do sentimento de inteireza, o de fragmentação. Daí a morbidez de suas imagens, a qual vem ligá-las, generalizadamente, ao universo decaído da falta. Daí o exacerbado naturalismo, em função do qual a natureza se animiza e, em sua sádica diferença, converte-se na "velha madrasta" da qual o eu-lírico procura se vingar. Daí o peso de um destino sombrio, projeção desmesurada – como bem viu Freud – de um superego tirânico e insaciável. Daí enfim, na poesia de Augusto dos Anjos, a particular aversão ao "monstro" do prazer, que ele teme mais do que a própria morte. Por tudo isto, vê-se quão longe ele está da inocência trágica de Nietzsche.
Talvez o nosso jornalista tenha confundido trágico com grotesco, ou neobarroco. Augusto é pura transplantação barroca, espécime por excelência do melancólico, de que nos fala Walter Benjamin. Com suas imagens alegóricas, fragmentadas, o que o motiva basicamente é o anseio de resgatar o homem decaído; é o desejo de "outra Humanidade".
E, já que estamos desfazendo confusões, espera-se que o nobre jornalista, em seus próximos artigos sobre o tema, escreva certo o nome do deus grego: a pronúncia e grafia corretas é "Dioniso" (sem o terceiro "i"), e não "Dionísio".

 

 

 

 
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