Se vivo fosse, Augusto dos Anjos teria completado, no último dia 20 de abril, cento e treze anos. O poeta morreu em 1914 e a sua obra desde então propaga-se, latejante e viva, confirmando uma perenidade e um vigor só encontrados em muito poucos autores da literatura brasileira. Augusto tem sido objeto de ensaios, artigos Dissertações e Teses – e pode-se dizer que o seu coroamento crítico-editorial ocorreu em 1994, com a publicação da sua Obra Completa pela Editora Nova Aguilar.
Tive um modestíssimo papel nos bastidores dessa edição. E presumo que, aos admiradores e estudiosos do poeta, interesse o que narro a seguir. Era um meio-dia de abril de 1994, estou almoçando e o telefone toca. Atendo. Um moço de nome Alexei Bueno, ligando-me do Rio de Janeiro, me pede “um favor”. E que favor? Ele primeiro me explica que trabalha na editora Nova Fronteira e, no momento, está organizando a obra completa de Augusto dos Anjos. A seguir, informa-me o que lhe falta para, segundo ele, a edição sair “mesmo completa”: os exemplares do jornalzinho Nonevar referentes aos anos de l908, l909 e 1910.
Esse jornalzinho, como se sabe, circulou na Festa das Neves no início do século. Segundo o historiador Humberto Nóbrega, nele Augusto colaborou por boêmia, desfastio de provinciano e até por necessidade econômica, revelando uma faceta oposta à dos seus poemas ditos sérios. Ao invés da angústia, da melancolia e das imagens escatológicas, a colaboração no Nonevar revela a jocosidade e o ludismo de um poeta mundano, atento ao ridículo dos amigos e à beleza das mulheres. Imagino que só haja um lugar onde eu possa encontrar os exemplares do jornalzinho: a biblioteca do Dr. Humberto Nóbrega.
Prometo a Alexei fazer o possível e, logo, trato de me mexer. Graças a um parente comum, tenho acesso aos filhos de Humberto Nóbrega – D. Nitinha e José Francisco –, os quais me recebem com cordialidade. E me introduzem na biblioteca do seu pai. Por força de recente mudança de local, o acervo ainda estava sendo organizado e catalogado. Impossível descobrir, naquela provisória confusão, os exemplares do jornalzinho. Recomendo às bibliotecárias o meu pedido – e, na minha ênfase, tenho rasgos de provincianismo e de nacionalismo exaltados; peço-lhes que se empenhem em nome da Paraíba, do nosso amor a Augusto, da própria literatura brasileira...
Feita a recomendação, espero. Estou confiante e, ao mesmo tempo, cético. E cético, sobretudo, pelo que me dissera D. Nitinha: durante a doença do seu pai, “amigos” dele se infiltraram na biblioteca e levaram muita coisa. Teriam esses ladinos surripiado também os exemplares do Nonevar? – interrogo-me receoso, sentindo um calafrio. Eu imaginava esse material, de que se tinha apenas fragmentos no livro de Humberto Nóbrega, para sempre perdido. Com isto, perdia-se significativa amostragem do múltiplo talento de Augusto, que também soube (e fez) rir.
Três, quatro dias depois, toca o telefone (sempre o telefone). E Ana, uma das bibliotecárias, me informa que o material foi encontrado. Não acredito até manusear os exemplares coloridos (um cor para cada noite), ainda bem conservados graças ao zelo do Dr. Humberto. E me apresso em providenciar-lhes a xerox, e enviá-la ao Alexei Bueno. Cerca de três dias depois, ele novamente me escreve, entusiasmado: “Recebi hoje, ao meio-dia, os dois envelopes com o Nonevar, em perfeito estado, e você pode avaliar a minha alegria!” (31/05/94).
Poucas linhas depois, numa prova de que não perdia mesmo tempo, informa o saldo parcial de suas pesquisas no material recém-adquirido: “Já encontrei no Nonevar, independente de tudo que precisava, uma quadra e oito crônicas inéditas, que vou começar a transcrever.”. E salienta que, com a inclusão desses inéditos – “e tudo em rigorosíssima ordem cronológica e texto perfeitamente fixado a partir dos originais” – Augusto dos Anjos terá, enfim, o tratamento editorial que sempre mereceu: de “clássico da língua”.
A 15 de junho enfim, em nova carta, Alexei Bueno dá como terminadas as suas investigações: “Terminei, com perfeito sucesso, a pesquisa e transcrição dos textos do Nonevar. Reencontrei a ordem cronológica, desfiz uma infinidade de erros de transcrição, localizei prosas inéditas, etc...”. Como se percebe, não foi pequena a contribuição que os exemplares do jornalzinho representaram para a edição da Obra Completa. Agora, sim, Augusto sairia mesmo em texto integral – com o registro de toda a sua produção conhecida, e confrontada com os originais, em verso e prosa.
Sobre o poeta, escrevi já uma Tese e muitos artigos. Nada me deixa mais vaidoso e satisfeito, no entanto, do que haver concorrido para salvar dos vermes, das traças – talvez do definitivo esquecimento – essa parcela da sua produção.