ESCRITOS AUGUSTO DOS ANJOS
Augusto dos Anjos e o Nonevar
30/03/2007
 

Augusto dos Anjos notabilizou-se por tematizar a morte e a melancolia, registrando em suas imagens, vazadas num vocabulário áspero e dissonante, o universo da doença e da putrefação. Em nossa tese O evangelho da podridão
(Viana, 1994), buscamos demonstrar que a morbidez, a negação do erotismo e o anseio destrutivo, presentes no poeta, não eram senão metáforas da culpa, ou seja, da falta concebida enquanto transgressão primeira -- pecado original. A partir da vinculação, enfatizada pela psicanálise, entre a morbidez e o sentimento de culpa -- e, também, entre a culpa e a pulsão de morte --, interpretamos as abundantes imagens de doença (ligadas, por exemplo, à tuberculose ou à lepra) como metáforas orgânicas do vício, ou da queda.
Por tais características, o poeta firmou-se no imaginário de seus críticos e leitores como um homem essencialmente triste, mesmo doente -- e para quem, conforme ele refere num dos seus poemas, “a alegria é uma doença e a tristeza a (sua) única saúde.”. Medeiros e Albuquerque chegou a afirmar que “... Augusto seria incapaz de fazer versos humorísticos.” (“O livro mais estupendo: o Eu”. In: Anjos, 1994: 94) -- como se o poeta, por conta dos seus delírios e obsessões, só tivesse olhos e ouvidos para o que, na natureza e no cosmo, significasse deterioração, morte e ruína.
O que não é verdade. O historiador paraibano Humberto Nóbrega foi o primeiro a chamar a atenção para o “outro lado” do poeta, representado basicamente pelos poemas, sonetos e quadras que ele publicou no jornalzinho paraibano Nonevar, que circulava nas noites de festa dedicadas a Nossa Senhora das Neves, padroeira da cidade. Segundo esse estudioso, com o Nonevar, “...inaugurou-se esse tipo de imprensa efêmera, -- imprensa de festa, -- cheia de verve, humor, sátira, epigramas, perfis e louvaminhas ao belo sexo.” (Nóbrega, 1962: 26). Como a querer sublinhar o lado frívolo, mundano e, afinal, humano do autor de Eu e outras poesias, Humbertro Nóbrega informa ainda, a propósito da chamada Festa das Neves: “...Augusto não pôde fugir ao seu poder atrativo. Integrou-se nela. Como qualquer mortal, compareceu às novenas. Perambulou pelas calçadas onde os divertimentos se apresentavam. Freqüentou os bares improvisados. Observou. Inspirou-se. Colaborou nos jornaizinhos.” (Ibid.: 27-8).
O propósito deste trabalho é comentar a produção do poeta veiculada num desses jornaizinhos, ou seja, nas edições do Nonevar que circularam por ocasião da Festa das Neves, nos anos de 1908, 1909 e 1910. Alguma coisa desse material apareceu, dispersa e fragmentariamente, no livro Augusto dos Anjos e sua época, de Humberto Nóbrega. Mas já é possível enconrá-lo inteiro na edição das obras completas da Nova Aguilar, organizada por Alexei Bueno, a qual veio a público em fins de 1994. O que possibilitou a reunião desse material, e a sua posterior publicação, foi o acesso que tivemos à biblioteca de Humberto Nóbrega, onde afortunadamente nos deparamos com um volume encadernado dos exemplares do jornalzinho. Volume único e precioso, que escapou do caos de uma biblioteca desfeita e do vandalismo de “amigos” que, na doença do historiador e antes de sua morte, surripiaram muito do qua havia ali de raro -- conforme a filha dele, mesmo, nos contou. Era um milagre que os exemplares do Nonevar tivessem escapado à confusão, à desorganização provisória com que nos deparamos e, sobretudo, à ladinagem de falsos amigos.
De posse do material, conforme dizíamos, providenciamos a sua reprodução xerográfica e a enviamos para o organizador da edição da Nova Aguilar, que justificadamente se empolgou. Em carta a nós endereçada, com a data de 31/05/94, Alexei Bueno escreve: “Recebi hoje, ao meio-dia, os dois exemplares com o Nonevar, em perfeito estado, e você pode avaliar a minha alegria!”. E nos informa, algumas linhas depois: “Já encontrei no Nonevar, independente de tudo que precisava (ou seja, a produção relativa às noites de festa da padroeira) uma quadra e oitro crônicas inéditas, que vou começar a transcrever.”.
A colaboração em versos de Augusto dos Anjos no Nonevar se resume a três poemas longos, inseridos sempre no início das publicações, e mediante os quais ele apresenta e, de certo modo, justifica a existência do jornalzinho; alguns poemas, sobretudo sonetos, dedicados a perfilar romanticamente figuras femininas; outros tantos (quadras, sobretudo) feitos como caricaturas, perfis críticos de figuras masculinas; e uma série de quadras comerciais. Tais versos, obviamente, não se inscrevem na produção considerada séria de Augusto. E nem poderiam. Conforme observa Alexei Bueno, eles “foram conscientemente criados como diversões rimadas (...); ...esse conjunto (...), sem muito acrescentar esteticamente à obra do poeta, vale como documento de época e documento humano...” (In: Anjos, 1994: 842).
Os versos que aparecem nas edições do Nonevar foram compostos com a mesma disposição frívola com que se participa de eventos mundanos. Ou, se ditados por algum tipo de necessidade, terá sido uma necessidade bem diversa da que preside, ou determina, a criação propriamente literária. É curioso, quanto a esse ponto, ler a carta que Augusto dirige à sua mãe, em 25 de julho de 1907. A certa altura, ele pede permissão para continuar na província por mais alguns dias, uma vez que foi “... convidado para constituir uma das principais partes colaboradoras de um jornalzinho elegante que se propõe a ser a delícia espiritual do novenário festivo.” A seguir, faz a honesta ressalva de que esse jornal, “através do pretexto literário que o recomenda, esconde intuitos puramente financeiros.” Mas também reconhece com pragmatismo que, após os festejos, por conta mesmo desses intuitos, “(poderá) recolher às (suas) arcas particulares de bacharel necessitado alguma pecúnia consoladora.” (Ibid.: 691).
Mesmo destoando do conjunto da obra, compostos sem maiores pretensões e, sem nenhuma dúvida, apresentando menor valor estético, os versos dados a público no Nonevar têm particularidades que interessam a quem estuda a poesia de Augusto dos Anjos. Além de revelarem penetração e originalidade, testemunham quanto certas idéias ou imagens lhe obsediam a consciência. É como se o autor variasse de tema, ou mais propriamente de contexto, voltando-se para o lado superficial da vida; mas preservasse, com voluntária “inadequação”, vocábulos, imagens e construções que lhe serviram para expressar o amargor, a melancolia, a intensidade da sua angústia ética e existencial. Sobretudo nos poemas longos, com que introduz as colaborações de cada ano, o poeta parece fazer uma paródia de si mesmo. Ou seja: como num exercício automático de estilo, e visando a um efeito pretensamente piedoso (já que se trata de invocar Nossa Senhora das Neves), ou irônico e caricatural, ele parece juntar, levemente alterados, fragmentos da sua obra canônica.
Esses fragmentos constituem-se basicamente de idéias obsessivas, escolhas vocabulares, torneios gramaticais, enfim, de imagens características, mesmo idiossincráticas, que permeiam todo o Eu e outras poesias. No poema com que abre o Nonevar de 1908, por exemplo, o poeta escreve: “...sou Rabelais que ri/ E arrebenta com o riso a máscara malvada/ com que Deus achincalha a geração inchada/ Dos que trazem no sangue a herança de algum mal.”(Ibid.: 499). Esses versos, tanto pelo vocabulário quanto pelo núcelo ideativo, parecem fundir passagens, respectivamente, de “Os doentes” e de “As cismas do Destino”, dois dos maiores e mais significativos poemas de Augusto. Na quadra 140 de “Os doentes”, com efeito, lê-se a referência ao “achincalhamento do progresso” que “anulava (o índio) na crítica da História” -- esse mesmo índio que, “filho podre de antigos goitacases”, afigura-se ao “eu lírico” vítima de um pecha de origem. Na estrofe 80 de “As cismas do Destino”, por sua vez, o poeta refere o mal do sangue, ou seja, a incriminação a que a hereditariedade nos submete -- sendo justamente ela, a hereditariedade, o instrumento de propagação da referida pecha. A idéia se repete, envolvendo o mesmo personagem (o índio, que simboliza a própria espécie humana), nos versos 155 e 156 de “Os doentes”, onde o “eu lírico” enfatiza que “A hereditariedade dessa pecha/ Seguiria seus filhos.” Como se vê, nem num jornalzinho mundano e que se propõe tão-somente a divertir as pessoas, o poeta se livra de suas obsessões fundamentais.
Ainda como exemplos desse procedimento intratratextual, confrontamos abaixo, respectivamente, algumas passagens de poemas publicados no Nonevar com trechos da obra canônica do autor (todas as indicações de páginas, entre parênteses, se referem à Obra completa citada na Bibliografia):

-- “...Na estática fatal das emoções humanas.”(Abertura do Nonevar de 1909, v. 29) - “A estática fatal das paixões cegas... “ (“Os doentes”, v. 307, p. 245);
-- “Com a cabeça oprimida e triste dos que pensam...” (Idem, v. 5) - “Para que esta opressão desapareça/ Vou amarrar um pano na cabeça...” (“Tristezas de um quarto minguante”, vv. 14-5, p. 300) - “Rola-me na cabeça o cérebro oco.” (Poema negro, v. 118, p. 289);
-- “Estruge a irracional fonética dos bois...” (Idem, v.20) - “Ser cachorro! Ganir incompreendidos/ Verbos!” (“As cismas do Destino”, vv. 145-6, p. 215);
“De onde jorra a ilusão que mata a água do choro...” (Abert. do Nonevar de 1910, v. 6) - “Choro e quero beber a água do choro (“Tristezas de um quarto minguante”, v. 59, p. 301);
-- “... pondo-lhes esqueletos/ No fundo da consciência infeccionada e má.” (Idem, vv. 18-9); - “... vendo em cada escarro/ O retrato da própria consciência! (“Os doentes”, vv. 93-4);
-- “...o estado de incoesão/ Da matéria inicial...” (Idem, vv. 32-3); “...A falta de unidade na matéria!” (“As cismas do Destino”, v. 116, p. 214);
-- “Na veemência medonha da mandinga...” (Soneto “Despedida”, publicado num dos números do Nonevar de 1908) - “...Com a veemência mavórtica de um ariete...” (“As cismas do Destino”, v. 113, p. 198).

No exemplo extraído do soneto “Despedida”, é particularmente visível o tom crítico e paródico. O autor se utiliza inclusive da aliteração, recurso que lhe é característico, e parece contrapor a majestade do decassílabo heróico, com o peso dos fonemas repetidos, ao contexto pífio e ligeiro em que ele é empregado. Tal soneto, publicado na última noite da festa, lamenta que “a luz do Nonevar” esteja se apagando e, no bojo da tristeza disso decorrente, canta “essa fealdade atra que estraga a Humanidade -- esta infeliz coruja/ A nutrir-se da própria roupa suja/ Como um moscardo dentro de uma chaga.” (502). É então que aparece, no primeiro terceto, o verso acima transcrito: “Na veemência medonha da mandinga/ Não generalizou essa catinga/ Que aos estômagos bons causa receios”. Percebe-se no trecho grifado, pela repetição do adjetivo e pela estrutura triádica dos seus componentes, o intuito de parodiar os versos de “As cismas do Destino”. Percebe-se também como a rima do vocábulo “mandinga” com “catinga”, do verso seguinte, denuncia a intenção lúdica e jocosa.
A paródia ocorre quando “o estilo e os efeitos técnicos de um escritor” são usados, ainda que por ele mesmo, com propósito distinto do uso original, isto é, relacionados com outro contexto -- no mais das vezes, indiferente ou antagônico ao contexto anterior (Cf. Sant’Anna, 1985: 12). É próprio do uso paródico “inverter o significado ideológico e estético do texto” (Ibid.: 56). Repetindo vocábulos, imagens e construções que são típicos do seu estilo, com vistas a um efeito superficial e meramente jocoso, Augusto dos Anjos acaba decalcando a si mesmo.
É nos perfis de amigos, políticos ou demais personalidades da província que melhor se percebe a nota humorística. Com intuito satírico e caricatural, Augusto compõe sonetos e sobretudo quadras -- sendo estas, pela estrutura e pela concisão, típicos exemplos de epigramas. Os traços característicos do epigrama, como se sabe, são a brevidade e a malícia, que se conjugam para o efeito satírico. O epigrama, segundo Geir Camps, expressa “um conceito ou pensamento malicioso da maneira mais incisiva.” (1978: 65). Daí que, no geral -- conforme nos lembra Massaud Moisés (1974: 191) --, se formalize numa quadra. Vejamos alguns exemplos: na seção “Tipos” do Nonevar publicado a 5 de agosto de 1909, Augusto perfila do seguinte modo, e bem ao seu estilo, o Sr. Everaldo Pessoa: “Pretende publicar um Ramaiana/ Cujo herói principal o intuito nutre/ De, com a raiva específica do abutre,/ Estrangular a canalhice humana.” (512). Mais sutil é o retrato que ele pinta, a 2 de agosto do mesmo ano, de um dos smarts da época -- Joaquim Correia Lima: “Pontífice de arcádias amorosas,/ Trata todas as moças com carinho/ E gosta mais do cálice das rosas/ Do que de mesmo de um cálice de vinho.”(525). Ainda no Nonevar publicado a 5 de agosto de 1909, ele compõe o seguinte retrato de Francisco Seráfico da Nóbrega, um dos políticos da terra: “É deputado, e admirador confesso/ Da orientação política do Nilo,/ Quando ouve qualquer valsa de Camilo/ Soluça com saudade do Congresso (533).
Enquanto observador de tipos e costumes, uma das melhores colaborações de Augusto para o Nonevar é, sem nenhuma dúvida, o retrato que ele faz de Manoel Tavares Cavalcanti, com o qual inicia a série dos Smarts. Nessa pintura, destaca-se a articulação do individual com o típico. Nela, a agudeza da observação se conjuga à imaginação verbal, em função do que a imagem do dândi se recorta vívida, perceptível em sua dimensão de caricatura. Augusto não caracteriza genericamente um personagem da belle époque provinciana e brasileira. Também não o identifica, a ele que “prefere à propaganda civilista/ A propaganda dos chapéus da moda”, somente pela alienação política e social. Destacando-lhe a vaidade, o gosto de ostentar e propagandear chapéus da moda -- mas também caracterizando-o fisicamente, através de comparações caricatas e “preciosas” --, ele nos esboça concretamente a sua figura, que resume na imagem de um “reclame vertebrado”. Dessa forma, num juízo crítico que o traduz física e psicologicamente, apresenta-nos o smart como um comercial ambulante, uma espécie de propaganda de si mesmo.
Abaixo transcrevemos integralmente o soneto:

Smarts

Dilui-se em vários círculos de agrado
Este que, oferecendo um chapéu novo,
Dá à vista curiosíssima do povo
O aspecto de um reclame vertebrado.

Tem a aparência elipsoidal de um ovo,
Bebe champagne num cíato dourado!
Contra o seu carioquismo requintado
Versos epigramáticos não movo.

A idolatria ideal das moças goza,
Este miniaturesco Rui Barbosa
Que anda fazendo eternamente roda.

Mas, mostrando-se sempre economista,
Prefere à propaganda civilista
A propaganda dos chapéus da moda. (538)

Mais haveria a dizer sobre a colaboração de Augusto dos Anjos no Nonevar. Mas temos receio de esgotar -- se é que já não o fizemos -- o tempo de vinte minutos que nos foi concedido. Se a producão que aí circulou pouco acrescenta à sua obra fundamental, ela se constuitui, todavia, num exercício não desprezível de intratextualidade, mediante o qual o poeta, consciente e inconscientemente, reafirma temas obsessivos, escolhas vocabulares, estruturais, e procedimentos retórico-estilísticos. Constitui-se ainda no testemunho de outra faceta de Augusto, que se revela aberto à observação mundana e capaz de flagrar, e expressar jocosamente, o ridículo de figuras que, à época, transitavam na província. Nem tudo nele, pois, é tristeza. O que, bem pensado, não é tão misterioso assim. Ou não haverá, no fundo de toda melancolia, um sorriso -- mesmo que seja o sorriso, descarnado e irônico, de um esqueleto?

Bibliografia

ANJOS, Augusto dos. Obra completa: volume único. Organização, fixação do texto e notas por Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Aguilar, 1994.
CAMPOS, Geir. Pequeno dicionário de arte poética. São Paulo: Cultrix, 1978.
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo, Cultrix,
1974.
NÓBREGA, Humberto. Augusto dos Anjos e sua época. João Pessoa:
UFPB, 1962.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Paródia, paráfrase & Cia. São Paulo:
Ática, 1985.
VIANA, Chico. O evangelho da podridão: culpa e melancolia em Augusto dos Anjos. João Pessoa, UFPB/Editora Universitária, 1994

 

 

 

 
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