ESCRITOS AUGUSTO DOS ANJOS
Augusto dos Anjos e Alfredo Pimenta: uma comparação
30/03/2007
 

Entre os autores quem teriam influenciado Augusto dos Anjos, há quem aponte o escritor português Alfredo Pimenta, que em 1904 lançou um livro com título igual ao do poeta paraibano — Eu. A propósito da possível relação entre eles, e comentando a originalidade de Augusto, Antônio Houaiss escreve:
“Há os que o remontam, pelo título, ao outro Eu que teria sido publicado no início do século por Alfredo Pimenta em Portugal, ‘enciclopédia viva’, segundo M. Rodrigues Lapa — livro considerado raridade bibliográfica, que adoraria ter a oportunidade de ler — se o há entre nós.”
Graças à generosidade do poeta e crítico Gilberto Mendonça Teles, tivemos acesso ao livro do erudito português, o qual foi por nós xerografado. E agora nos propomos, neste breve artigo, a confrontá-lo com a obra do paraibano, a fim de rastrear diferenças e pontos em comum. Interessa-nos responder, basicamente, às seguintes questões: teria o Eu do poeta português influenciado a obra homônima de Augusto dos Anjos, a qual veio a público em 1912, ou seja, oito anos depois que Pimenta publicou o seu livro? Se tal aconteceu, até que ponto podemos considerar essa obra como precursora do livro do paraibano? Haverá algo mais do que uma coincidência de títulos?
A identidade dos títulos, obviamente, não bastaria para que se confirmasse a influência de um sobre o outro — embora ela nos chame muito a atenção. Não apenas pelo conteúdo, representado pelo solitário pronome pessoal, como também pelo aspecto gráfico. Tal como no livro de Augusto, a palavra “Eu” aparece, no de Alfredo Pimenta, destacada em vermelho contra um fundo amarelo. Mas seria isto suficiente para confirmar a propalada filiação? Mais do que tal semelhança gráfica, certamente, outro fator terá concorrido para sugerir essas afinidades. Referimo-nos à época em que viveram, ao clima ideológico a que estiveram expostos e, sobretudo, à resposta que deram -- ou buscaram dar — aos apelos intelectuais do seu tempo. Tais apelos se resumiam, sumariamente falando, na crise provocada pela influência da filosofia positiva, matriz de um realismo ou de um objetivismo a que, não raro, correspondia um impulso alternativo, antitético, de inspiração subjetivista e espiritual.
Vivendo no final do século XIX, ambos assimilaram a seu modo o positivismo. Augusto dos Anjos foi um positivista tortuoso, que diluiu os conceitos de Spencer, Leibniz e Haeckel em imagens de desesperada melancolia. Pode-se dizer que, sendo sobretudo poeta, ele traiu o “credo” cientificista; usou a ciência como instrumento, acervo fonético, lexical e semântico com que, em outra dimensão da linguagem, viria a perpetrar as suas imagens. Alfredo Pimenta, sensível ao ideário positivista, vivenciou-o sobretudo no plano intelectual. Sentimentalmente, conforme veremos, foi um romântico. O positivismo, para ele, era a base de um realismo que, em verdade, não praticou — ou praticou mal. A base de um realismo que o fazia admirar Guerra Junqueiro, a quem oferece o Eu, e se torna perceptível, entre outros traços, na acerba crítica ao clero, ao governo e aos poetas “creadores de bibelots”. Como também no desejo de conceder à sua arte uma função pedagógica e revolucionária; “... o verdadeiro papel da Arte é ir à frente das Revoluções, preparando o terreno, educando os espíritos” (160) , afirma ele em texto explicativo inserido no final de sua obra.
A poesia de Alfredo Pimenta reflete, em níveis desiguais, o conjunto de idéias que influenciaram o pensar e o sentir na virada do século. Sintomaticamente, o escritor divide o seu livro em três partes: “Amor”, “Phantasias” e “Revolução”. Nas duas primeiras, dedica-se basicamente a, dentro de um figurino romântico, cantar a figura da mulher. Na última, conforme o subtítulo sugere, direciona o seu estro à exaltação do ideal revolucionário, com vistas à redenção social dos oprimidos. A propósito dessa divisão, ele afirma: “Foi aos versos que formam a terceira parte que eu dediquei toda a minha força, toda a minha Alma.” (162). Quanto ao resultado poético, no entanto, essa terceira parte é a mais fraca do seu livro. Repetitiva e um tanto ingênua, ela se ressente, o mais das vezes, de um idealismo maniqueísta. E apresenta imagens como esta: “Ó Liberdade! ó luz hystérica que abrasas/ A Luz do nosso olhar e o lar das nossas casas!”, típica de uma recepção caótica do conjunto de tendências que vigoravam na época em que ele viveu. O Eu de Alfredo Pimenta, conjugando ao romantismo elementos realistas e decadentistas, parece a nós um produto esteticamente híbrido e indeciso. O poeta não consegue unificar as tendências que perfilha, ou seja, não logra revelar-se a nós como uma definida e bem caracterizada individualidade poética.
Confrontando o livro do português com o de Augusto dos Anjos, damo-nos conta de algumas curiosas coincidências. Tanto um como o outro tematizam, por exemplo, a dor e a mágoa. Mas, enquanto Augusto dos Anjos identifica na mágoa um travo maiúsculo e definitivo, de ressonâncias metafísicas, o qual se constitui em marca da falta (mácula) humana — Alfredo Pimenta enaltece, preponderantemente, a mágoa na mulher. A mulher que chora — a mulher magoada — aparece, em sua lírica, como uma imagem de obsessivo apelo emocional. Assim é que, no primeiro dos sonetos nomeados de “Santificação da mágoa”, ele refere a certa altura: “Tudo em ti me revela uma tristeza/ Filha da grande dor da natureza,/ Bendita e santa irmã da humana dor!” (p. 14). E, no segundo deles, remata o terceto final com estes versos:
“Que a tua dor, Mulher, seja infinita!/ Pois quanto mais sofreres, maior serás!”. Em Augusto dos Anjos, a dor merece um hino. Ela é tratada, segundo a perspectiva cristã, como um ganho do espírito e, sobretudo, como um instrumento de ascese, conforme se pode constatar nos versos com que ele inicia o seu “Hino à dor”: “Dor, saúde dos seres que se fanam,/ Riqueza da alma, psíquico tesouro,/ Alegria das glândulas do choro/ De onde todas as lágrimas emanam....”. Observe-se como o soneto termina: “E, assim, sem convulsão que me alvoroce,/ Minha maior ventura é estar de posse/ De tuas claridades absolutas!”. É perceptível como, no português, a dor é concebida sentimentalmente e particularizada, enquanto expressão, no semblante da mulher. No paraibano, a dor aparece antes de tudo como grandeza do espírito e veículo de elevação humana.
Ambos os autores cantam, ou lamentam, a figura da meretriz. Em Alfredo Pimenta, o drama das prostitutas decorre basicamente da insensibilidade social. Descritas também em cores românticas, ideais, elas aparecem como “...aquelas cujo amor sagrado/ Alguém estrangulou!”(112). São vítimas dos filhos da burguesia, que as desfrutam em alcovas noturnas mas, em outros circunstâncias, hipocritamente as detratam e desprezam. Confronte-se, a propósito, esta passagem do poema “Fala das prostitutas”: “À luz crua do sol, a populaça/ Insulta-nos com vaias.../ Mas, quando é noite, mísera e devassa, / Vem comprar-nos o corpo e a desgraça,/ Vem beijar-nos as saias!// Filhos-família, quando acompanhados,/ Não nos conhecem, não!/ E à hora dos fantasmas evocados,/ Vêm pedir-nos o leito embriagados,/ E pedem-nos perdão!. (Ibidem).
Bem diversa é a pintura que Augusto dos Anjos faz da meretriz. Comparando-se os dois retratos, tem-se uma idéia aproximada do quanto separa o paraibano do português. No segundo, como vimos, o protesto social se ampara em referências ideais e num discreto apelo emotivo. Em Augusto não há complacência ou meias tintas. Descrita em traços concretos, e com enorme vigor expressivo, a prostituta aparece antes como a “funcionária dos instintos”, cujo apetite carnal, transgressivo e vicioso, aparenta-a antes ao animal do que ao ser humano. Vítima da desigualdade social (mas, sobretudo, do “vício” característico da espécie humana), ela como que “se vinga” promovendo uma irônica identificação entre os que a procuram — conforme se pode observar no fragmento a seguir: “É a meretriz que, de cabelos ruivos,/ Bramando, ébria e lasciva, hórridos uivos/ Na mesma esteria pública, recebe,/ Entre farraparias e esplendores,/ O eretismo das classes superiores/ E o orgasmo bastardíssimo da plebe!// É ela que (...)/ Sente, alta noite, em contorções sombrias,/ Na vacuidade das entrahas frias/ O esgotamento intrínseco da besta!”
Outras semelhanças, com a suas correspondentes diferenças, nos chamam a atenção. Num longo poema de inspiração social, e sem título, Alfredo Pimenta tematiza a “legião dos desgraçados” que têm de batalhar o pão de cada dia. No realismo com que descreve homens e ambiente, chega a lembrar Cesário Verde, com o qual mais de um crítico já aproximou Augusto dos Anjos. Em determinado quarteto Pimenta escreve, a propósito de seus “magros e famélicos”: “Uma tosse satanica os abala;/ Cospem escarros tysicos vermelhos...” (134). Essa passagem nos lembra outra de “As Cismas do Destino”, de Augusto, que também se refere a cuspo, tosse e sangue: “E o cuspo que essa hereditária tosse/ Golfava, à guisa de ácido resíduo,/ Não era um cuspo só de um indivíduo/ Minado pela tísica precoce.” (213). Só que a doença, em Alfredo Pimenta, é antes uma referência de ordem física, e diz respeito essencialmente à tuberculose. Em Augusto dos Anjos, a doença é sobretudo o símbolo de uma deterioração de ordem psicológica ou, mais propriamente, espiritual. Enquanto metáfora orgânica do “vício”, a tísica aparece como um dos efeitos da violação que o homem perpetrou na ordem natural, conforme testemunham os versos seguintes: “Não! Não era o meu cuspo com certeza./ Era a expectoração pútrida e crassa/ Dos brônquios pulmonares de uma raça/ Que violou as leis da Natureza!” (Ibidem).
São comuns ainda, aos dois poetas, o panteísmo e a representação da Natureza. O poema “Duas vidas”, de Alfredo Pimenta, é uma autêntica afirmação do credo panteísta: “A Vida no Universo está espalhada:/ Ou seja na Montanha grandiosa,/ Ou na bendita lágrima chorada!”(34). Novamente a “lágrima”, motivo recorrente no autor. Se está na lágrima, a vida também está na pedra, elemento mineral e bronco, e por isso tentativamente adequado a albergar, por antítese, as manifestações vitais. Tanto Alfredo Pimenta quanto Augusto dos Anjos fizeram versos panteístas à pedra, à montanha, conferindo ao recorte desses elementos, inóspito e bruto, sugestões dramáticas. Podemos de novo confrontar, quanto a esse aspecto, os versos de cada um. No poema há pouco citado, por exemplo, Alfredo Pimenta se refere à “... maldição que ouvimos/ Sair da boca duma pedra/ Quando com outra às vezes a ferimos!” (35).
Se comparamos o dramatismo dessa imagem com a representação que Augusto dos Anjos faz no primeiro dos sonetos “As montanhas”, de novo percebemos a significativa diferença que separa um do outro — quer pelo uso lingüístico, quer pela integração, diríamos, dialética, entre o elemento plástico, exterior, e o componente anímico e subjetivo. Para compreender melhor essa afirmação, observe-se o fragmento seguinte, de Augusto dos Anjos: “Quem não vê nas graníticas entranhas/ A subjevidade ascensional/ Paralisada e estrangulada, mal/ Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?!// Ah! Nesse anelo trágico de altura/ Não serão as montanhas, porventura,/ Estacionadas, íngremes, assim,// Por um abortamento de mecânica/ A representação ainda inorgânica/ De tudo aquilo que parou em mim?!” (352). No trecho do poeta português, conforme foi visto, o que se tem é a sumária indicação de um conflito, própria somente a figurar o sentimento, ou melhor, o ressentimento que acomete a substância bruta quando agredida. Tal substância, embora animizada, parece ter uma vida autônoma, exterior às inquietações do ser humano — quando, na verdade, o que ela reflete ou alegoriza são os sofrimentos do homem. Nos versos de Augusto, pelo contrário, ocorre uma magnífica ilustração desse vínculo; o exterior — agonia das montanhas — é sentido, rigorosamente, como projeção do conflito anímico. Projeção e, também, alegoria dessa luta. Ao ver nas montanhas uma imagem da “subjetividade ascencional paralisada”, Augusto alude, coerentemente, a um combate que se constitui em leit motiv da sua obra, representado pelas contradições entre instinto e alma, matéria e espírito. Sendo um “abortamento de mecânica”, um resíduo inorgânico, a montanha alegoriza a própria morte enquanto pulsão, que se contrapõe aos anseios eróticos, vitais, e se constitui em sombrio e repetido aceno para o homem. O que essa imagem nos evoca, de maneira intensa e radical, é a memória do elemento inorgânico de onde proviemos , a qual persiste, segundo a psicanálise, como ameaçadora e, às vezes, tentadora perspectiva de retorno.
A imagem da Natureza como repetição, signo do eterno retorno, aparece, pois, em ambos os poetas. Confirmando a sua índole romântica, Pimenta não deixa de exaltá-la como a “mãe de tudo quanto existe” (15), nela reconhecendo, ao mesmo tempo, “A mesma eterna e trágica alegria,/ Na eternidade d’uma eterna vida!” (Ibidem). Vendo a Natureza com o sentimento do pecado original, a que se liga a percepção, que tem o homem, da própria “diferença” -- do próprio exílio --, Augusto não a considera “mãe”, e sim “madrasta”. A natureza é o lugar da repetição, mas esse caráter monótono vem de ela se constituir num enigma para si própria, conforme sugere o entrecho do soneto “Natureza íntima”. Ao sondar-se a si mesma, tudo com que ela se depara é “...a mesma imortal monotonia/ Da sua face externa indiferente!”. (317). Por licença poética, Augusto transfere à natureza, animizada, a mesma perplexidade com que o homem a perscruta: “Será possível que eu, causa do Mundo,/ Quanto mais em mim mesma me aprofundo/ Menos interiormente me conheça?!”(Ibidem). Com esse procedimento, de ricas sugestões cognitivas, reforça a idéia de que ela, a Natureza, é sobretudo uma invenção do homem, uma projeção do insolúvel enigma com que ele, perpetuamente, se defronta. A “Natureza” seria o nome, dado por ele, a um ordenamento que o exclui e, paradoxalmente, o inclui — e que o homem não pode compreender.
Há outros pontos comuns entre os livros de Augusto dos Anjos e Alfredo Pimenta, os quais, levando-se em conta os limites deste artigo, é impossível enumerar. A despeito de tais semelhanças, com as diferenças nelas incluídas — de estilo, de ideais, de concepções acerca do homem e do seu futuro -, julgamos que não se pode falar em influência. A nosso ver, é sobretudo pelas marcas do Decadentismo que a poesia do português se assemelha à do paraibano. Há em ambos o mesmo fundo mórbido, a mesma perplexidade ante a voragem contraditória de sentimentos e conceitos que marcaram o final do século XIX. Conforme observa Massaud Moisés, “... A conjuntura decadente resultava da impressão de que tudo, religiões, costumes, justiça estava em deliqüescência.” E discrimina, logo depois: “Anarquia, perversões, satanismo, neuroses, patologias, entravam em moda, dando a impressão dum caos apocalíptico.” .
Tanto Alfredo Pimenta quanto Augusto dos Anjos vivenciaram dramaticamente esse clima. Sensação de deterioração, de fim iminente, de decadência para o emergir de uma nova ordem — são comuns aos dois poetas. Mas cada qual espera ou propõe o novo à sua maneira. Se um sonha com a revolução social, concebida romanticamente, o outro deseja a redenção espiritual do homem. Se um, a despeito dos ideais progressistas, permanece formalmente preso ao passado — o outro inova em termos formais, utilizando-se de recursos (o coloquialismo, por exemplo) que o incluem, já então, na modernidade literária.

Bibliografia

ANJOS, Augusto dos. Obra completa; volume único. Organi-
zação, fixação do texto e notas de Alexei Bueno. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer. In: ---.
Obras completas. Vol. xviii. Rio de Janeiro: Imago,
1980. p. 13-85.
HOUAISS, Antônio. Cinqüentenário da morte de Augusto
dos Anjos. In: BRAYNER, Sônia & COUTINHO, Afrânio. orgs. Augusto dos Anjos; textos críticos. Brasília: INL,
1973. p. 47-9. (Coleção de Literatura Brasileia, 10) MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São
Paulo:1974.
PIMENTA, Alfredo. Eu. /s. l./: /s.e./, 1904

 

 

 

 
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